30 março, 2016

Umas das primaveras da minha vida

Fiz as malas e fui.
Durante um ano inteiro vivi sem grandes oscilações de temperatura.
Lá os dias nascem cedo, muito cedo e escurecem também cedo, muito cedo.
As flores têm cheiros e cores intensas e o pôr do sol é o mais bonito de todo o universo.
Há borboletas que dançam entre a vegetação e passarinhos que alegram musicalmente os dias que teimam a passar devagar.
Apesar das temperaturas elevadas, todos os dias me pareciam primavera,
Durante um ano eu vivi em São Tomé e Principe.


A primeira vez que calquei aquela terra poeirenta, amarela, mas mágica foi em 2012, tinha o Tomaz 9 meses e fomos ter com o pai que já lá estava a lutar pela nossa vida.
A magia nessa altura ainda não me tinha conquistado.
O primeiro impacto foi terrível. Eu ia num misto de "vais-ver-onde-possivelmente-vais-viver" e "férias-nos-trópicos". Era março e quando o avião aterrou, às 5 da manhã, já o sol ia alto e o calor era sufocante.
A chegada do avião ainda é uma novidade em São Tomé, traz pessoas novas, sangue na guelra e desta vez trouxe-me a mim a "branca mulhé di Miguel"! Houve dois ou três miúdos que me reconheceram sei lá como e que surgiram no meio de dezenas de pessoas a oferecerem-se para ajudar com as malas!
Em 2012 o aeroporto não era nada apelativo, ao contrário de hoje, recuperado e bonito!
Estava tonta com tanta agitação, o calor continuava insuportável. Estava a odiar. Eu não queria estar ali. Queria vir embora no dia a seguir. Viver ali, nunca!
Mas não vim, até porque só havia avião daí a uma semana!
Os dias corriam e eu ia pensando que se calhar aquilo era bom, o calor até se ia suportando, mesmo tomando banhos de água fria de madrugada para o suportar.
No meio daquilo tudo quem estava com problemas era eu, porque o Tomaz nunca se queixou! Incrível!
O que é certo é que tive quase um mês em São Tomé e não foi preciso muito para ser conquistada.
As pessoas, os cheiros, a terra que levanta pó, as chuvas cheias de força, o mar, tudo é tão simples, tão genuino, tão puro.
A capacidade de adaptação a um país como São Tomé não será fácil para todos.
A escassa rede eléctrica, a falta de recursos de saúde, o alto custo de vida, as ruas inundadas quando chove, e outras coisas banais: a falta da Fnac, dos centros comerciais, das lojas de roupa, podem deixar algumas pessoas à beira de um ataque de nervos.Eu jurava que não sobrevivia a isto, mas sobrevivi.
Não é errada a ideia de que África se ama ou odeia. Não há meio termo.
Findas as férias e o reconhecimento do local quase de ponta a ponta voltei para regressar em 2013.
Permaneci até 2014, quase 380 dias de África. O meu filho ganhou imunidade de tanta terra que comeu, de tanto que andou descalço naquela terra fértil e que o fez crescer destemido.
Eu aprendi a viver com menos. Estava longe da Europa consumista!
Visitei praias paradisíacas e conheci pessoas hilariantes e genuinas, amigas para a vida.
Comi que me fartei apesar o calor me ter emagrecido brutalmente.
Sofri com furúnculos e com mosquitos, mas aprendi a ser cordial com baratas e osgas!
Apaixonei-me pelas roças e pela história do pais, que também é nossa.
Continuei a ser a Mulhé di Miguel, e o meu nome transformou-se num nome forte e rasgado. Pela maneira como carregam nos "r" eu passei a ser "Márrrrria".
E Márrria tem saudades muinto-ê de São Tomé! Muitas, muitas!
























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